Meus pés doiam bastante quando voltava para casa, à noite, depois de um dia inteiro de aulas de física, as quais exigiram milagres do esforço físico, de todas as equações da relatividade. O ônibus feito de carne humana executava um traslado confuso, meio torto, meio circular uniformemente variado na praça portugal, meio cheio de trabalho quando idosos subiam, quase sempre carregado de uma força certamente absoluta. Essa força de que falo, sei que me entende, não é dessas forças que nós podemos medir, vetorialmente, com olho, lápis, na ponta da faca. Essa força é meio estranha, talvez fora de balanceamento. Mas, ah, essa força, essa interação tão próxima entre nós moléculas que nos tira a respiração, que faz procurar a janela, essa força, ah, falta a palavra. Outra curva, mais moléculas nesta imensa reação móvel que, neste momento, cruzava, cataliticamente, a avenida Barão de Studart, apressadissima, talvez incentivada pelo nosso saldoso hidrocarboneto apelidado Diesel. Faltava pouco, pouquissimo tempo e eu já estaria...consumido?
Fora do ambiente fechado ocorreu-me o pensamento triste, de que os nobres cientistas que pensaram nos maravilhosos, grandes e bonitos ônibus se lembraram de nós, moléculas, aderidas a tal respeitável transporte, como substâncias impuras.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
sábado, 10 de outubro de 2009
Note que ponho aqui o resto do resto que me tinha nas entranhas. é tudo o que tenho. e tudo o que sobrou foi o desgosto. o gosto amargo subindo pelas cavernas da garganta, buscando rumar até o céu, inatingível céu da boca.
Cada palavra do que disse tem um pouco de sangue frio. e a fumaça do cigarro que dantes acalmava minhas impaciencias hoje ofusca minha visão rasteira, pequena, indirecionada, para o horizonte.
Mas nem me proponho a mudar algo. a falta de saco e de sorte me fizeram assim, louco, são, perto, longe, tudo, nada, fisicamente impossivel de ser aderido, entendido, ou encaixado em lugares pequenos como o coração.
Cada palavra do que disse tem um pouco de sangue frio. e a fumaça do cigarro que dantes acalmava minhas impaciencias hoje ofusca minha visão rasteira, pequena, indirecionada, para o horizonte.
Mas nem me proponho a mudar algo. a falta de saco e de sorte me fizeram assim, louco, são, perto, longe, tudo, nada, fisicamente impossivel de ser aderido, entendido, ou encaixado em lugares pequenos como o coração.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Pequena reflexão orgânica
Um sorriso triste digno das grandes merdas da vida é o que carrego entre os lábios agora.
Que é, senão parcela fundamental do entendimento humano, a merda?
Merda é a primeira coisa que nos vem à cabeça quando olhamos para situações dentro de situações sem lógica ou soluções, ou soluções para situações que não possuem lógica, ou sua namorada entendendo perfeitamente o contrário do que você queria dizer. Merda! aquele grito interno sufocado parece que sai com uma leveza característica dos desabafos regados a gritos e pancadas no volante. Merda! Soa como sinfonia, como movimento harmônico tão simples, que parece até bobagem trazermos aqui o quão simples é a delícia que é dizer merda, fazer ou arquitetar, premeditadamente, merdas posteriores.
Eu, teórico-prático da grande arte das boas merdas da vida, entendo que neste momento me encontro no estágio máximo do ciclo de vida da cagada humana. A eterna comédia de nossos antepassados e herdeiros é este ciclo, da cagada à decomposição, até o acontecimento de um novo acidente que, por mando das ironias mais fortes presentes na antropologia social, nos faz olhar para trás e refletir a respeito do tanto de merda que fazemos na nossa vida.
Que é, senão parcela fundamental do entendimento humano, a merda?
Merda é a primeira coisa que nos vem à cabeça quando olhamos para situações dentro de situações sem lógica ou soluções, ou soluções para situações que não possuem lógica, ou sua namorada entendendo perfeitamente o contrário do que você queria dizer. Merda! aquele grito interno sufocado parece que sai com uma leveza característica dos desabafos regados a gritos e pancadas no volante. Merda! Soa como sinfonia, como movimento harmônico tão simples, que parece até bobagem trazermos aqui o quão simples é a delícia que é dizer merda, fazer ou arquitetar, premeditadamente, merdas posteriores.
Eu, teórico-prático da grande arte das boas merdas da vida, entendo que neste momento me encontro no estágio máximo do ciclo de vida da cagada humana. A eterna comédia de nossos antepassados e herdeiros é este ciclo, da cagada à decomposição, até o acontecimento de um novo acidente que, por mando das ironias mais fortes presentes na antropologia social, nos faz olhar para trás e refletir a respeito do tanto de merda que fazemos na nossa vida.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Aonde vende o que comemos no recreio?
Vagos são os pensamentos que me vem à cabeça quando ouço a palavra cantina. Não é lá uma palavra muito importante para o nosso cotidiano, eu sei. A verdade é que não gosto de pronunciar a palavra "cantina". tenho vergonha ou algo parecido. Só sei que não me sinto nem um pouco à vontade quando acabo de falar essa bendita palavra que começa com "C" e termina com "A".
Quando criança, costumava convidar amigos para lanchar comigo no recreio indo à lanchonete ou até mesmo ao ,nunca pronunciado por crianças, refeitório. Refeitório era sinal de coisa de adultos, ou sei lá, as crianças não costumam dizer por aí aos pais que lancharam no refeitório. Mas é por que cantina não dá. Certo vexames já aconteceram, como o famigerado caso da Coordenadora que perguntou ao aluno se este havia deixado suas coisas na cantina, e o aluno respondeu "não, na bodega". A entidade do colégio teve aquilo como ofensivo e convocou os pais do aluno. Nem para buscar referencias no sujeito transcendental do pobre aluno que não havia encontrado nenhuma outra palavra para substituir cantina naquele infeliz momento, lembrando-se de que no recinto vendia-se balas e saquinhos de pipoca. Bodega. que palavra.
Atualmente este trauma já não me afeta muito. Só não costumo conversar com ninguém sobre tomar um cafezinho nos intervalos das aulas.
Quando criança, costumava convidar amigos para lanchar comigo no recreio indo à lanchonete ou até mesmo ao ,nunca pronunciado por crianças, refeitório. Refeitório era sinal de coisa de adultos, ou sei lá, as crianças não costumam dizer por aí aos pais que lancharam no refeitório. Mas é por que cantina não dá. Certo vexames já aconteceram, como o famigerado caso da Coordenadora que perguntou ao aluno se este havia deixado suas coisas na cantina, e o aluno respondeu "não, na bodega". A entidade do colégio teve aquilo como ofensivo e convocou os pais do aluno. Nem para buscar referencias no sujeito transcendental do pobre aluno que não havia encontrado nenhuma outra palavra para substituir cantina naquele infeliz momento, lembrando-se de que no recinto vendia-se balas e saquinhos de pipoca. Bodega. que palavra.
Atualmente este trauma já não me afeta muito. Só não costumo conversar com ninguém sobre tomar um cafezinho nos intervalos das aulas.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
A minha capa
Tenho quase certeza de que já não posso mais ter certeza de nada nesses novos dias ditos modernos. Hoje, por exemplo mais próximo, detive em meus olhos uma infância inteira em desuso, destruída por um comentário acerca de uma capa de chuva azul que usava, mesmo já estando completamente ensopado. Tão confortável era o instrumento de proteção à chuva. E possuía o cheiro dela, até nos pequenos cordõesinhos que ajustam o quão apertada a nosso corpo a capa iria ficar. Se não fosse tão gordo, escolheria que a capa me vestisse rigidamente o corpo, grudada em cada centimetro de pele que ela pudesse abarcar. Talvez assim eu sentisse em cada parte dessa capa antes usada por ela o toque de que estive com saudade durante toda uma manhã chuvosa, entre filas de repartições meio-públicas e diálogos desinteressantes no centro da cidade. Meio quilo a menos. Resta talvez, agora, mais ou menos um e meio de mim pra que eu possa de novo amar a quem tanto amo, e sentir de novo o cheiro de capa de chuva nos ombros lisinhos dela. Meu medo é de que essa minha capa só volte a me vestir quando eu já estiver todo ensopado outra vez.
quinta-feira, 12 de março de 2009
Auto-ajuda animal
As notas a seguir se referem a um professor de literatura animal do século XIX.
Alfred Julius Vergninaud nasceu em um pequeno vilarejo próximo à sua tão querida São Petesburgo. Logo aos 3 anos de idade se mudou com a família e seus escravos de estimação para uma cidadela suíça a qual fora batizada por tribos bárbaras do século IV de "Strümen die Vranko", expressão em seu dialeto que significa algo parecido com "Onde se planta pêssegos".
Alfred, durante sua conturbada infância, tinha como hobbies pescar atum com a espingarda de seu pai e, em tempos de chuva e muito frio, brincar de cavalinho com ursos selvagens. O garoto parecia apreciar a companhia dos animais, fato evidenciado pelo pai quando este avistou o pequeno Alfred construindo uma caverna junto a seu cão dinamarquês, o adorado da família, Bob, o astuto.
Quando mais maduro, Alfred ingressou na universidade de Viena para estudar direito. Apesar de ter passado horas estudando ética e leis, nosso personagem se interessou muito pelos animais que viviam próximo à universidade. Alfred ajudou gatos siameses, cachorros doentes, e até deu voltas com um cavalo ancião, o qual dias depois foi identificado como melhor amigo do imperador Austro-húngaro, acontecimento que levou Alfred à cadeia. Em troca de sua liberdade, Alfred prometeu ajudar o imperador em seu relacionamento com seu melhor amigo cavalo, que, de uns tempos pra cá, estava lhe parecendo indiferente.
A partir daí Alfred passaria a escrever manuais de como se dar bem com animais de estimação. Nesse meio tempo sucessos como "Minhas orelhas querem atenção" e "Um Au Au para Lizzie Bergman" foram publicados. São também do nosso querido personagem os créditos por "Cães e Gatos na Basiléia" e "Meu querido amigo ponei"(uma homenagem ao imperador).
Na semana passada, seu neto Alfred Julius Vergninaud, foi escolhido como Nobel da literatura élo romance Best Seller "As peripécias de Chorumello, um cão de amigos". Vê-se que a famosa frase usada por Alfred Avô no dia de sua morte agora faz sentido: "já gostei muito de cachorro. Hoje, só quente".
Alfred Julius Vergninaud nasceu em um pequeno vilarejo próximo à sua tão querida São Petesburgo. Logo aos 3 anos de idade se mudou com a família e seus escravos de estimação para uma cidadela suíça a qual fora batizada por tribos bárbaras do século IV de "Strümen die Vranko", expressão em seu dialeto que significa algo parecido com "Onde se planta pêssegos".
Alfred, durante sua conturbada infância, tinha como hobbies pescar atum com a espingarda de seu pai e, em tempos de chuva e muito frio, brincar de cavalinho com ursos selvagens. O garoto parecia apreciar a companhia dos animais, fato evidenciado pelo pai quando este avistou o pequeno Alfred construindo uma caverna junto a seu cão dinamarquês, o adorado da família, Bob, o astuto.
Quando mais maduro, Alfred ingressou na universidade de Viena para estudar direito. Apesar de ter passado horas estudando ética e leis, nosso personagem se interessou muito pelos animais que viviam próximo à universidade. Alfred ajudou gatos siameses, cachorros doentes, e até deu voltas com um cavalo ancião, o qual dias depois foi identificado como melhor amigo do imperador Austro-húngaro, acontecimento que levou Alfred à cadeia. Em troca de sua liberdade, Alfred prometeu ajudar o imperador em seu relacionamento com seu melhor amigo cavalo, que, de uns tempos pra cá, estava lhe parecendo indiferente.
A partir daí Alfred passaria a escrever manuais de como se dar bem com animais de estimação. Nesse meio tempo sucessos como "Minhas orelhas querem atenção" e "Um Au Au para Lizzie Bergman" foram publicados. São também do nosso querido personagem os créditos por "Cães e Gatos na Basiléia" e "Meu querido amigo ponei"(uma homenagem ao imperador).
Na semana passada, seu neto Alfred Julius Vergninaud, foi escolhido como Nobel da literatura élo romance Best Seller "As peripécias de Chorumello, um cão de amigos". Vê-se que a famosa frase usada por Alfred Avô no dia de sua morte agora faz sentido: "já gostei muito de cachorro. Hoje, só quente".
segunda-feira, 2 de março de 2009
O peso do pão
O hábito de dirigir mal já me rendeu bons frutos. Exemplo primo deste fato foi minha experiencia na sexta-feira passada, quando voltava de uma noite comum, de mesa de bar, em que algum rapaz cantava, enquanto outros alguns fingiam estar escutando. O rapaz cantava bem, apesar de algumas pessoas em minha mesa reclamarem de sua performance em que fechava os olhos. parecia estar sonhando com alguma coisa agradável, uma praia, um bosque cheio de animaizinhos fofos, ambientes impossíveis de se imaginar quando se canta em bares lotados pelo barulho de copos quebrando. Mas esse não é o ponto principal da nossa conversa. ao voltar de um resto principal desta noite agradável, ao qual não me referirei minuciosamente, estanquei virtuosamente o carro e vi um rapaz de canelas finas sentado sobre a calçada. Concentrado, raramente olhava para os lados, os pequenos córregos de água da chuva lavavam inconscientemente seus pés descalços. Ele estava pronto para o trabalho. Com suas mãos leves levava as notícias que os médicos, empresários, advogados e donos de jornais iriam ler durante o expediente. Não houve parte interessante, você leitor que pensou que iria morrer de susto ou de riso ao final desta conversa. A parte que me intrigou foram os 15 segundos filosóficos em que pensei nestes que realmente nos trazem as boas novas sobre a crise financeira ou sobre o mais novo campeão de futebol cearense. Boas novas. Parecia que na capa daquele jornal estava escrito que ela me amava, em letras grandes. O sinal abria, meus olhos cansados voltavam a enxergar o cinzento do asfalto, e as finas canelas começavam a andar, levando o peso necessário para garantir o pão de quem lê e escreve.
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