segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

A obra

Hoje, ao voltar da boemia, cheio de chop e violao nos olhos, Vi um operário na rua, vazio de cimento e café na vista. Antes de tudo, antes que pergunte ou antes que remeta, nada fiz, apenas o vi. Era de rosto magro, nas pernas e nas enxadas, tudo o que possuia era seu olhar fixo no próximo andaime a ser escalado. Pensei serem aqueles andaimes o caminho para o inferno de dante, ou seria o paraíso? Curioso. Mas não deve haver curiosidade alguma naquele lugar, onde tantos devem tanto a um só,e esse um só dando tão pouco a estes outros tantos. O sinal abriria já, e meus olhos mal conseguiam acompanhar os movimentos do operário, cada braço acima, cada perna corajosa para subir, e subir, e subir, para ter do tijolo o seu pedaço de pão. Para ele, como dizia um poeta, é claro, um tijolo jamais valeira mais do que um pão, pois um pão ele daria aos filhos e o comeria, e o tijolo, apenas o forçaria a pregá-lo, pregá-lo, como mais um tijolo na parede. Eu nem sabia seu nome, sua idade, o que ele gostaria de fazer, mas, naquele instante, em que tantos outros operários em construção executavam o mesmo resvalar de cimento e areia por todo o mundo, aquele seria, para mim, aquele que tantos poetas cantaram, aquele que ninguem encherga, aquele que muitos chamam de aquilo.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Arrependimento

Arrependimento é uma dádiva dos deuses. Dádiva esta tardia. Estariam os deuses sempre muito ocupados? Sempre! Sempre me arrependo em tempos errados. E se arrependimento matasse estaria eu bem Bras Cubas a uma hora destas. Arrependimento é dádiva. Dádiva divina. Infernal sina que desmancha amores ainda por nascer. E eu aqui, pagando por merecer a crapulice que cometi. Sem cor nem brilho, o arrependimento que antes me comovia, agora arrebata meu coração. Arrependimento é sofrimento, arrependimento é coisa do cão.