quinta-feira, 16 de abril de 2009
A minha capa
Tenho quase certeza de que já não posso mais ter certeza de nada nesses novos dias ditos modernos. Hoje, por exemplo mais próximo, detive em meus olhos uma infância inteira em desuso, destruída por um comentário acerca de uma capa de chuva azul que usava, mesmo já estando completamente ensopado. Tão confortável era o instrumento de proteção à chuva. E possuía o cheiro dela, até nos pequenos cordõesinhos que ajustam o quão apertada a nosso corpo a capa iria ficar. Se não fosse tão gordo, escolheria que a capa me vestisse rigidamente o corpo, grudada em cada centimetro de pele que ela pudesse abarcar. Talvez assim eu sentisse em cada parte dessa capa antes usada por ela o toque de que estive com saudade durante toda uma manhã chuvosa, entre filas de repartições meio-públicas e diálogos desinteressantes no centro da cidade. Meio quilo a menos. Resta talvez, agora, mais ou menos um e meio de mim pra que eu possa de novo amar a quem tanto amo, e sentir de novo o cheiro de capa de chuva nos ombros lisinhos dela. Meu medo é de que essa minha capa só volte a me vestir quando eu já estiver todo ensopado outra vez.
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